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{sábado, setembro 27, 2003}

 

      O meu mal foi ler Proust e achar que poderia ser poeta. Ou pelo menos surgir com alguma prosa que trouxesse alegria. Aquele consolo de que você não existe sozinho, e que as palavras são boas amigas. De uma mentira inventada fazer uma verdade nova.

      Talvez eu não seja uma escritora. Talvez eu seja só uma neurótica que a psicanálise ainda não consertou para a vida. E que, quando consertar, talvez acabe até com isso que eu penso ser, com modéstia, quase um talento. Porque é quando eu mais erro na vida que acerto nas frases.



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      Por que não sou simples? Pra que tanta elucubração? É só a vida.



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      Agora era tarde. O livro que um dia queria escrever já começou a ser escrito. Numa observação, num olhar que recebo, numa garrafa de club soda na estante errada do supermercado me lembrando de outra coisa (se não tiver preguiça, explico depois*).

      Já estou anotando a vida há tempos. Observo demais. Mas exercito também. Faz tempo que entendi que não basta estar viva, tenho que participar. Hum… Melhores frases virão, prometo.



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      Às vezes esqueço que sou menina e olho o mundo com retinas masculinas. Leio pensamentos de quem me olha como se perguntasse quem eu sou. Também não sei. Mas sei que posso ser menino às vezes, nas minhas idéias, pensando sem os limites impostos pelo sexo que já nos enganou que era o mais forte por tempo demais.
Seres humanos são almas. E almas não têm sexo. Pelo menos não para justificar o que fazem contra seus iguais e seus desiguais.



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* Club Soda




Aquela garrafa de club soda na seção errada do supermercado falava comigo. Ela me fez lembrar da primeira vez que experimentei a bebida na casa do homem que costumava amar e não senti prazer muito maior do que beber água extremamente gasosa. Mas me fiz parecer deliciada com a experiência. O sexo era bom, intenso, prolongado, suado, molhado, tenro, quase excessivo, melhor que muitos, o melhor até então, porque quando se trata de sexo, depois de se conhecer a proficiência, não se deve brincar com amadores. Mas o club soda não tinha nada com isso, afinal. E a vida seguia, como acontece até que a morte a interrompa. E hoje vejo que aquela lembrança que me atropelou no supermercado foi só a vida falando comigo nas suas entrelinhas, um momento instantaneamente mágico que consegui captar. Às vezes melhor que a experiência em si é a lembrança que fica dela, e é na qualidade dessa lembrança que o que foi vivido parece se justificar.



posted by me 27.9.03

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{terça-feira, setembro 23, 2003}

 

      A noite de sábado foi um sonho para Jota. Para Marita foi uma revelação.

      Ela se sentia mais distante daquela coleção de sentimentos que o relacionamento lhe proporcionava. Marita estava querendo viver a vida de outro jeito; estava querendo tudo para hoje. E isso não era ansiedade, mas sabedoria.

      Ter um namorado poderia ser muito útil no quesito sexo em dia, mas para aproveitar a vida aquele namorado não estava muito adequado, não.

      Marita se sentia amada, como fora antes pelo ex-marido, mas os dois eram homens que ela não admirava por inteiro. Tinham o temperamento errado, o espírito incompatível com o dela..

      Chega de reclamar das pessoas. Marita não reclamava mais de ninguém, isso era perda de tempo. Ela queria mais tempo para estar com uma de suas melhores companhias: ela mesma..

      Marita descobrira há uns dois anos que era feliz. Ser feliz é isso. Uma decisão, antes de mais nada. Marita entendia que a vida nem sempre funcionava do jeito que ela queria, mas depois de muito Schopenhauaer, Sêneca, Heiddegger, Kierkegaard, Sartre, Nietzsche, Clarice Lispector, Emerson, Epicuro, D.H.Lawrence, William Blake, Fernando Pessoa, Henry Miller, Jean Genet, Bukowski, Proust, Hermann Hesse, Baltasar Gracián, Epicteto, Heráclito (...) tinha que ter aprendido alguma coisa. Estava alfabetizada para a vida..

      Marita queria mais a si. Mais e melhor. E o namorado dela vinha ocupando espaço demais, deixando espaço de menos para ela aproveitar aquela pessoa tão maravilhosa na qual vinha se transformando lentamente, ou no ritmo que tinha capacidade. Aconteceu que essa capacidade aumentou e Marita queria mais espaço para poder aumentar seu ritmo de vida, não na velocidade, mas na amplitude. Queria um olhar mais largo, um viver mais espalhado, um coração mais livre. Marita nunca se amou tanto e não dava para continuar um relacionamento que era a cara de sua fase auto-sabotagem..

      Ela não precisava mais se criar problemas para reclamar da vida. Estava pronta para a vida de verdade. Uma vida de verdades. Tinha direito a ela agora. Entrava na maioridade da vida e tinha que dar tchau para o namorado..

      Mas de uma certa forma ele iria entender. Ou melhor, ela entendia agora que aquela relação já tinha feito muito por ambos. Por ela, que conseguiu superar sua opção recorrente por namorados inadequados e por ele, que teve a experiência de conviver com Marita, e isso não é pouca coisa..

      Seu trabalho ali parecia encerrado. E isso batia nela com humildade. Marita não tinha delírios de ego, apenas queria estar mais só, para poder estar acompanhada com mais gosto em outra hora..

      Agora era hora de estar mais com ela. E essa conversa é muito calcinha. Marita detestava quando se via explicando as coisas desse jeito tão esquisito. Era como se tivesse colocado em palavras pobres seus sentimentos tão mais valiosos. Fica difícil dizer o que sente, o que lhe parece tão nobre, e traduzi-lo desse jeito tão auto-referente, tão auto-ajuda... Ela sentia uma coisa maior do que poderia explicar. E sobre isso era melhor não dizer mais nada.


posted by me 23.9.03
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      Trinta e dois anos e ainda tinha amigos imaginários. Dos reais ela não dava conta, estavam enlouquecidos demais. Os problemas de todos os dias fizeram deles pessoas amargas, que sorriam como se abrissem uma cancela de uma tonelada – seus lábios pareciam de chumbo, havendo silêncio seria possível até ouvi-los rangendo sem lubrificação para expor os dentes à luz.

      Os amigos imaginários eram mais fáceis de se lidar. Não falavam e não faltavam àquela mulher diferente. Diferente, mas sã de suas idéias. Quando não tinha companhia da vida real, Marita pegava um de seus amigos imaginários e ia ao cinema. Depois tomavam café e escolhiam livros na livraria de qualidade das redondezas. Quando o dinheiro não estava apertado, comprava uns dois ou três – os leitores indecisos lêem muito mais, entre dois livros, levam os dois.

      E Marita lia a vida com a mesma sede que corria os olhos pelas folhas de papel dos melhores textos.

      Gostava de filosofia e sexo animal. Só que os homens andavam esquisitos e nem todos a apeteciam. Só os mais estranhos. Porque Marita nunca escolhia o caminho mais fácil para ser feliz.

      O último namorado saíra de sua vida havia umas três semanas, e ela começava a olhar em volta quem seria o próximo, com vontade de disparar sua metralhadora giratória caça-homens.

      Mas faltava o principal, alguém que a interessasse. E para alguém interessar a ela tinha que haver tempo de observação.

      Marita gostava de contemplar suas presas antes de um approach. Gostava de reparar na voz do sujeito, no jeito de ele andar, sentar, rir, beber, fumar. Ela não gostava de fumantes, mas achava sensual um cigarro chegando e saindo de uma boca. Gostava mais de bocas, era isso.

      Tinha que ver o cara dançando, cantando sem desafinar, tirando um suéter, correndo na chuva, olhando outras mulheres, dando uma gargalhada, bebendo com os amigos. Tinha que ver o cara vivendo antes de sentir o impulso original de voar no pescoço dele, cheirá-lo, beijar sua boca de leve e com vontade e paixão. Percorrer seus ombros e peitos com mãos de dona, segurá-lo forte com um suspiro profundo de amante satisfeita.

      Sensações baratas não a interessavam. Não mais. Sexo de mentira, melhor masturbação, bons filmes e livros. E amigos imaginários.



posted by me 23.9.03
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Um homem

      Acordou cedo e apressado sem saber quem era. Já de pé no banheiro, o espelho lhe contou que ele era Jorge, e um dia cheio de afazeres se revelou em sua cabeça.Responsabilidades do cotidiano o aguardavam. Mais um dia, menos um dia de vida.

      O cheiro do café o alertava que já era hora. O autômato tinha que estar preparado para a guerra. Depois da bebida quente e de duas torradas secas, uma mastigada na sala, a segunda já no elevador, Jorge se viu no espelho do cubículo de aço, agora de banho tomado e com a roupa de advogado, e se sentiu mais enquadrado no primeiro dia útil da semana.

      O que o espelho poderia dizer para ele na viagem do quarto andar até o asfalto? Jorge parecia esperar dele uma resposta para aquela vida tão sem graça e se olhava cúmplice de si mesmo, entendendo o silêncio do aço.

      No final do dia, o rosto no espelho do elevador estava abatido, seu reflexo só o fazia pensar em descansar, descansar.

      Quando foi que ele vendeu sua alma ao trabalho? Sua vida em troca de contas a pagar, cartões de crédito, cheque especial e toda a gincana de manter esses valores dentro do parco orçamento de advogado medianamente bem sucedido?

      Na parada no quarto andar, fôlego para atravessar a porta de casa. Beijos sem gosto na mulher que um dia amou e que nos últimos dois ou três anos não fazia mais que ocupar o seu lado na cama, algumas prateleiras no armário e encher de solidão a sua vida.

      Mas essas não são palavras de homem e aqui quem narra a história é essa mulher, que um dia o amou e que ainda hoje tenta entender o que é esse resto de sentimento que não consegue classificar, e que, por isso, é vivido como resto, simplesmente.

      O casamento parecia estar no fim, isso quando é desses casamentos que chegam ao fim que falamos. Também poderia ser apenas o meio de uma relação que deixava o amor para trás em troca de companheirismo. Eles não se davam mal, se entendiam, se ajudavam, conversavam. Só não tinham mais desejo um pelo outro. E isso não era a pior coisa que poderia acontecer. Eles achavam a vida dura demais para trocar o ombro um do outro por um casamento desfeito. O desejo um dia acaba. Depois de satisfeito, principalmente.


      Esse era o Jorge que Marisa via entrando e saindo de sua casa, de sua vida, de seus pensamentos. Então depois de tanto tempo juntos casamento era só isso, um casal morando no mesmo endereço?

      Mas essas questões já tinham sido postas de lado por ela, pela inexistência de respostas que a convencessem. Marisa já não ficava procurando entender o que acontecia. Marisa não procurava; encontrava. E essa frase já fora dita por um sábio, que agora, para variar, não me lembro quem foi...


posted by me 23.9.03
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      O namorado era pessoa complexa e de complexos. Tinha defeitos e uma grande qualidade: amante melhor nunca passara na vida dela. O resto valia a pena, ela não tinha a alma pequena - e Fernando Pessoa aprovou sua decisão quando disse a vida assim.

      Vamos tirar o Pessoa dessa história e colocar a pessoa de quem falávamos. Jota, ah, Jota, Marita nunca fora tão feliz no sexo antes – e olha que sempre deu um jeito de ser feliz na cama. Ele era a carne dela, o cheiro dela, o gosto dela, a textura que o corpo dela sempre procurou nos homens errados. Ele era o homem errado mais certo que ela já teve.

      Marita era feliz com Jota. Era e ainda é - é que sempre se enxerga o passado com mais facilidade que o instante. Jota tinha acabado de ligar para ela para agradecer sua oferta de empréstimo do carro para ele ir ao enterro de um amigo, o carro dele estava pintando e por dez dias Marita tinha se colocado à disposição dele sempre que o carro lhe faltasse. Não só ela, mas o carro poderia ser dele a qualquer momento. Não por gentileza, mas por amor.

      Marita gostou quando Jota ligou para agradecer mais uma vez e se revelou cheio de tesão, querendo estar com ela no dia seguinte. Era encantador ser desejada por um homem tão desejoso e desejável - sentimento que as palavras não traduzem. É quando a pornografia e a poesia se encontram. Coisa mais linda. E a pornografia se torna essencial para explicar a poesia da carne.


posted by me 23.9.03
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      No intervalo do filme, Marita foi beber água e deu de cara com Sérgio na cozinha. Ele e Paulo. Sérgio perguntou a ela sobre o filme (Eyes Wide Close. De Olhos Bem Fechados):

      - Você iria a uma festa assim?

      - Claro. Brincadeira de adulto.

      - Nossa, não sabia que você era assim... Safadinha...

      - Agora você sabe.

      Disse com a cara mais natural do mundo.


posted by me 23.9.03
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      Naquela manhã foi andar de bicicleta. Não que isso fosse um hábito, nunca o fazia. Mas desde a véspera sentiu vontade de estar ali àquela hora, sentada num selim que a levasse de ponta a ponta de Ipanema. Ela via Ipanema ser cosmopolita, a mesma Ipanema que era a praia dela quando pequena. Mas não estava saudosa, estava ali e bem. Foi feliz naquele domingo.




      Na véspera tinha ido jantar fora em um restaurante português com o namorado. Ele levou um amigo que estava meio chateado com a vida. A conversa foi um pouco desencontrada, eles falavam dos assuntos pela metade e às vezes ao mesmo tempo. Não se queria chegar a nenhuma conclusão e todos estavam mais interessados em despejar suas idéias do que em exibir coerência. Mas Marita só pensava no passeio de bicicleta no dia seguinte. Em sentir um vento na cara, um acalento do sol. E pessoas de um lado para o outro, o suficiente para fazer um belo e agradável domingo, sem tornar o passeio um erro na multidão.

      O namorado se despediu do amigo e o casal seguiu para o apartamento dele. Jota nunca esteve tão amoroso, tão apaixonado, tão interessado em sexo – e isso ele era sempre. Mas Marita estava tão zerada de amor que nem ligava. Foram para a frente da TV, ele quis mais vinho e abriu uma garrafa de uma marca que não conhecia e que havia comprado na véspera, por recomendação, numa casa especializada e se apressou em comprovar que a bebida era mesmo boa.


      Marita viu que o entusiasmo dele era maior que o dela. Ele desceu para pegar um CD que deixara no carro e achava indispensável para o contexto daquela noite. Marita riu de si quando se viu assistindo ao canal de sexo explícito da TV a cabo para ver se dava um up no tesão.


      Tinha que ser rápida, ele ia subir e poderia se ofender se a visse vendo filme pornô para abrir seus canais sensoriais. Ele subiu e na TV a gastronomia suspeita das carnes humanas dera lugar a um programa de culinária diferentemente exótico.


      Beijos no sofá, amor no sofá. Música, declarações de amor, mais beijos no sofá. Muito tesão, muito sexo oral, muitas caras, muitos suspiros e gemidos. Ela se divertia, mas menos que em outras vezes. E ele queria mais sexo, agora na cama. Seguiram para o quarto, talvez Marita agora entrasse no clima. Mas nem. Naquela noite o melhor programa era a bicicleta do dia seguinte, quando aí sim o gozo seria verdadeiro.


      Ele estava deslumbrado com ela. Dizia que a amava, que ela era uma gostosa, que era a foda. Isso foi engraçado. Marita sempre foi meio insegura, mas depois de tanto transar aqui e ali e dar de encontro com uns ineptos, viu que não ser bom de cama era meio comum e que ela era naturalmente gostosa. Marita podia estar num dia melhor ou pior, mas tinha a boca macia, o beijo molhado e com o tônus e gosto certos. Era cheirosa, e Jota sempre dizia isso, fogosa e se não fosse um dia de preguiça, tinha disposição de qualidade.


      Jota adorava fuder. E a palavra que ele usava era essa mesma. Marita sabia que ele era um connaisseur de sexo e quando a elogiava, ela se sentia lisonjeada e tirava das costas o peso de que poderia não ser boa no assunto que carregou até uns 23 anos. Mas já tinha 36, e o elogio veio meio tarde, mais para referendar uma conclusão à qual ela já havia chegado a respeito de si mesma quando encantou outros caras. Todos se revelavam meio surpresos com tanta volúpia. Ela era tão interessada em sexo quanto eles. Tão interessada em sexo quanto os homens. E até mais que alguns.


      Mas naquela noite o desejo dela se chamava bicicleta. E foi pensando no domingo de sol junto ao mar que ela pediu para ir embora depois do terceiro ato. E ela sentiu que talvez fosse demorar para pegar o namorado num outro dia de tanto carinho, paixão e desejo. Mas preferia correr o risco a estragar sua manhã seguinte. Marita sabia que pornografia é o teatro de quem não conseguia chegar lá pelo caminho do tesão verdadeiro, e que a qualquer momento detonaria sua volúpia de novo naquele apartamento, com aquele que se revelou a companhia perfeita para isso. Sua alma gêmea na cama, seu antagonista nos princípios para a vida.


      Nem a melhor filosofia substitui o prazer que Marita se antecipava pensando no domingo que passaria montada em sua bicicleta. Parecia uma criança. Uma mulher que deixava a brincadeira de adulto de lado para dormir e sonhar com um domingo de outono, céu azul e brisa no rosto.

      “O melhor lugar do mundo é amanhã de manhã lá na praia”.


posted by me 23.9.03

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