BLOG DE FICÇÃO, EXERCÍCIO LITERÁRIO E ALGUMAS VERDADES.
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terça-feira, setembro 23, 2003
Um homem
Acordou cedo e apressado sem saber quem era. Já de pé no banheiro, o espelho lhe contou que ele era Jorge, e um dia cheio de afazeres se revelou em sua cabeça.Responsabilidades do cotidiano o aguardavam. Mais um dia, menos um dia de vida.
O cheiro do café o alertava que já era hora. O autômato tinha que estar preparado para a guerra. Depois da bebida quente e de duas torradas secas, uma mastigada na sala, a segunda já no elevador, Jorge se viu no espelho do cubículo de aço, agora de banho tomado e com a roupa de advogado, e se sentiu mais enquadrado no primeiro dia útil da semana.
O que o espelho poderia dizer para ele na viagem do quarto andar até o asfalto? Jorge parecia esperar dele uma resposta para aquela vida tão sem graça e se olhava cúmplice de si mesmo, entendendo o silêncio do aço.
No final do dia, o rosto no espelho do elevador estava abatido, seu reflexo só o fazia pensar em descansar, descansar.
Quando foi que ele vendeu sua alma ao trabalho? Sua vida em troca de contas a pagar, cartões de crédito, cheque especial e toda a gincana de manter esses valores dentro do parco orçamento de advogado medianamente bem sucedido?
Na parada no quarto andar, fôlego para atravessar a porta de casa. Beijos sem gosto na mulher que um dia amou e que nos últimos dois ou três anos não fazia mais que ocupar o seu lado na cama, algumas prateleiras no armário e encher de solidão a sua vida.
Mas essas não são palavras de homem e aqui quem narra a história é essa mulher, que um dia o amou e que ainda hoje tenta entender o que é esse resto de sentimento que não consegue classificar, e que, por isso, é vivido como resto, simplesmente.
O casamento parecia estar no fim, isso quando é desses casamentos que chegam ao fim que falamos. Também poderia ser apenas o meio de uma relação que deixava o amor para trás em troca de companheirismo. Eles não se davam mal, se entendiam, se ajudavam, conversavam. Só não tinham mais desejo um pelo outro. E isso não era a pior coisa que poderia acontecer. Eles achavam a vida dura demais para trocar o ombro um do outro por um casamento desfeito. O desejo um dia acaba. Depois de satisfeito, principalmente.
Esse era o Jorge que Marisa via entrando e saindo de sua casa, de sua vida, de seus pensamentos. Então depois de tanto tempo juntos casamento era só isso, um casal morando no mesmo endereço?
Mas essas questões já tinham sido postas de lado por ela, pela inexistência de respostas que a convencessem. Marisa já não ficava procurando entender o que acontecia. Marisa não procurava; encontrava. E essa frase já fora dita por um sábio, que agora, para variar, não me lembro quem foi...