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{terça-feira, setembro 23, 2003}

 

      A noite de sábado foi um sonho para Jota. Para Marita foi uma revelação.

      Ela se sentia mais distante daquela coleção de sentimentos que o relacionamento lhe proporcionava. Marita estava querendo viver a vida de outro jeito; estava querendo tudo para hoje. E isso não era ansiedade, mas sabedoria.

      Ter um namorado poderia ser muito útil no quesito sexo em dia, mas para aproveitar a vida aquele namorado não estava muito adequado, não.

      Marita se sentia amada, como fora antes pelo ex-marido, mas os dois eram homens que ela não admirava por inteiro. Tinham o temperamento errado, o espírito incompatível com o dela..

      Chega de reclamar das pessoas. Marita não reclamava mais de ninguém, isso era perda de tempo. Ela queria mais tempo para estar com uma de suas melhores companhias: ela mesma..

      Marita descobrira há uns dois anos que era feliz. Ser feliz é isso. Uma decisão, antes de mais nada. Marita entendia que a vida nem sempre funcionava do jeito que ela queria, mas depois de muito Schopenhauaer, Sêneca, Heiddegger, Kierkegaard, Sartre, Nietzsche, Clarice Lispector, Emerson, Epicuro, D.H.Lawrence, William Blake, Fernando Pessoa, Henry Miller, Jean Genet, Bukowski, Proust, Hermann Hesse, Baltasar Gracián, Epicteto, Heráclito (...) tinha que ter aprendido alguma coisa. Estava alfabetizada para a vida..

      Marita queria mais a si. Mais e melhor. E o namorado dela vinha ocupando espaço demais, deixando espaço de menos para ela aproveitar aquela pessoa tão maravilhosa na qual vinha se transformando lentamente, ou no ritmo que tinha capacidade. Aconteceu que essa capacidade aumentou e Marita queria mais espaço para poder aumentar seu ritmo de vida, não na velocidade, mas na amplitude. Queria um olhar mais largo, um viver mais espalhado, um coração mais livre. Marita nunca se amou tanto e não dava para continuar um relacionamento que era a cara de sua fase auto-sabotagem..

      Ela não precisava mais se criar problemas para reclamar da vida. Estava pronta para a vida de verdade. Uma vida de verdades. Tinha direito a ela agora. Entrava na maioridade da vida e tinha que dar tchau para o namorado..

      Mas de uma certa forma ele iria entender. Ou melhor, ela entendia agora que aquela relação já tinha feito muito por ambos. Por ela, que conseguiu superar sua opção recorrente por namorados inadequados e por ele, que teve a experiência de conviver com Marita, e isso não é pouca coisa..

      Seu trabalho ali parecia encerrado. E isso batia nela com humildade. Marita não tinha delírios de ego, apenas queria estar mais só, para poder estar acompanhada com mais gosto em outra hora..

      Agora era hora de estar mais com ela. E essa conversa é muito calcinha. Marita detestava quando se via explicando as coisas desse jeito tão esquisito. Era como se tivesse colocado em palavras pobres seus sentimentos tão mais valiosos. Fica difícil dizer o que sente, o que lhe parece tão nobre, e traduzi-lo desse jeito tão auto-referente, tão auto-ajuda... Ela sentia uma coisa maior do que poderia explicar. E sobre isso era melhor não dizer mais nada.


posted by me 23.9.03

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