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{terça-feira, setembro 23, 2003}

 

      Naquela manhã foi andar de bicicleta. Não que isso fosse um hábito, nunca o fazia. Mas desde a véspera sentiu vontade de estar ali àquela hora, sentada num selim que a levasse de ponta a ponta de Ipanema. Ela via Ipanema ser cosmopolita, a mesma Ipanema que era a praia dela quando pequena. Mas não estava saudosa, estava ali e bem. Foi feliz naquele domingo.




      Na véspera tinha ido jantar fora em um restaurante português com o namorado. Ele levou um amigo que estava meio chateado com a vida. A conversa foi um pouco desencontrada, eles falavam dos assuntos pela metade e às vezes ao mesmo tempo. Não se queria chegar a nenhuma conclusão e todos estavam mais interessados em despejar suas idéias do que em exibir coerência. Mas Marita só pensava no passeio de bicicleta no dia seguinte. Em sentir um vento na cara, um acalento do sol. E pessoas de um lado para o outro, o suficiente para fazer um belo e agradável domingo, sem tornar o passeio um erro na multidão.

      O namorado se despediu do amigo e o casal seguiu para o apartamento dele. Jota nunca esteve tão amoroso, tão apaixonado, tão interessado em sexo – e isso ele era sempre. Mas Marita estava tão zerada de amor que nem ligava. Foram para a frente da TV, ele quis mais vinho e abriu uma garrafa de uma marca que não conhecia e que havia comprado na véspera, por recomendação, numa casa especializada e se apressou em comprovar que a bebida era mesmo boa.


      Marita viu que o entusiasmo dele era maior que o dela. Ele desceu para pegar um CD que deixara no carro e achava indispensável para o contexto daquela noite. Marita riu de si quando se viu assistindo ao canal de sexo explícito da TV a cabo para ver se dava um up no tesão.


      Tinha que ser rápida, ele ia subir e poderia se ofender se a visse vendo filme pornô para abrir seus canais sensoriais. Ele subiu e na TV a gastronomia suspeita das carnes humanas dera lugar a um programa de culinária diferentemente exótico.


      Beijos no sofá, amor no sofá. Música, declarações de amor, mais beijos no sofá. Muito tesão, muito sexo oral, muitas caras, muitos suspiros e gemidos. Ela se divertia, mas menos que em outras vezes. E ele queria mais sexo, agora na cama. Seguiram para o quarto, talvez Marita agora entrasse no clima. Mas nem. Naquela noite o melhor programa era a bicicleta do dia seguinte, quando aí sim o gozo seria verdadeiro.


      Ele estava deslumbrado com ela. Dizia que a amava, que ela era uma gostosa, que era a foda. Isso foi engraçado. Marita sempre foi meio insegura, mas depois de tanto transar aqui e ali e dar de encontro com uns ineptos, viu que não ser bom de cama era meio comum e que ela era naturalmente gostosa. Marita podia estar num dia melhor ou pior, mas tinha a boca macia, o beijo molhado e com o tônus e gosto certos. Era cheirosa, e Jota sempre dizia isso, fogosa e se não fosse um dia de preguiça, tinha disposição de qualidade.


      Jota adorava fuder. E a palavra que ele usava era essa mesma. Marita sabia que ele era um connaisseur de sexo e quando a elogiava, ela se sentia lisonjeada e tirava das costas o peso de que poderia não ser boa no assunto que carregou até uns 23 anos. Mas já tinha 36, e o elogio veio meio tarde, mais para referendar uma conclusão à qual ela já havia chegado a respeito de si mesma quando encantou outros caras. Todos se revelavam meio surpresos com tanta volúpia. Ela era tão interessada em sexo quanto eles. Tão interessada em sexo quanto os homens. E até mais que alguns.


      Mas naquela noite o desejo dela se chamava bicicleta. E foi pensando no domingo de sol junto ao mar que ela pediu para ir embora depois do terceiro ato. E ela sentiu que talvez fosse demorar para pegar o namorado num outro dia de tanto carinho, paixão e desejo. Mas preferia correr o risco a estragar sua manhã seguinte. Marita sabia que pornografia é o teatro de quem não conseguia chegar lá pelo caminho do tesão verdadeiro, e que a qualquer momento detonaria sua volúpia de novo naquele apartamento, com aquele que se revelou a companhia perfeita para isso. Sua alma gêmea na cama, seu antagonista nos princípios para a vida.


      Nem a melhor filosofia substitui o prazer que Marita se antecipava pensando no domingo que passaria montada em sua bicicleta. Parecia uma criança. Uma mulher que deixava a brincadeira de adulto de lado para dormir e sonhar com um domingo de outono, céu azul e brisa no rosto.

      “O melhor lugar do mundo é amanhã de manhã lá na praia”.


posted by me 23.9.03

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