BLOG DE FICÇÃO, EXERCÍCIO LITERÁRIO E ALGUMAS VERDADES.
Acredite nas mentiras; desconfie das verdades.
Ah, o espaço para delírios é mais embaixo. Mais embaixo, sempre, né?
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segunda-feira, setembro 13, 2004
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- Você nunca mente? - Sempre que dá. - Jura? - E isso pode ser uma mentira... - Ahn? - Essa pergunta que você fez não tem resposta válida, entende? Não há como um mentiroso ser honesto o suficiente para dizer que mente. - Resposta válida? - É, algumas perguntas não têm uma resposta boa. Se eu dissesse que nunca minto, poderia estar mentindo. Se dissesse que minto de vez em quando, quem sabe não seria nessa resposta? Se dissesse que sempre minto, por que estaria dizendo isso de verdade? - Ahn? - É estranho mesmo, papo de maluco. Ninguém pergunta uma coisa dessas. A pior coisa que um mentiroso pode perder é a sua credibilidade. A mentira começa a não funcionar, entende? Então, não espere que um mentiroso te diga a verdade. - Mas você complica tudo; faz tudo virar filosofia. - Mas desde quando filosofar é complicar? Complicar é quando se tenta facilitar o impossível. Isso é maquiar a vida. Não adianta procurar honestidade em quem acredita na desonestidade. O desonesto é antes de tudo um honesto em sua opção. - Nossa, me perdi nessa conversa. - Isso não é uma conversa. - O que é isso, então? - Uma tentativa de verbalizar o que não é verbalizável. Uma demonstração da incapacidade das palavras diante da realidade. - Realidade? - Nem lembro porque começamos esse assunto. - Acho que íamos falar de infidelidade, traição, monogamia... - Ah, tá. E aí? O que você acha disso? - Acho que ser verdadeiro é a melhor escolha. É muito mais confortável ser verdadeiro. Se alguma coisa te faz mentir, alguma coisa está errada. Todos deveriam poder dizer a verdade sempre. Uma mentira acaba trazendo outras. Se não se mente a primeira vez... Esse é o privilégio de quem é livre, não precisar mentir. - Mas uma mentirinha ou outra não faz mal a ninguém. - Faz sim. Faz mal a quem ouve, que mesmo sem ter consciência de que está sendo enganado, está sendo desrespeitado (e isso vai doer alguma hora). E faz de quem mente um prisioneiro da mentira; terá que arquivar a mentira, saber repeti-la, incrementá-la com detalhes verossímeis... Nem todo mundo é bom em ficção. Melhor ser bom em realidade mesmo, não ter que criar, plagiar outra história; sei lá. Nada como os fatos. - Dá para ser sempre autêntico? - Autêntico mentiroso? - Não; autêntico, verdadeiro? - Feliz de quem se permite ser de verdade... Mas se não dá, devemos ver por que não foi possível e mudar o comportamento. Se não quer ser fiel, não namore, assuma que gosta de viver a vida em total liberdade. Compromissos são para serem honrados. - Nossa, coisa mais careta. - Não é caretice, é respeito a si próprio; é não virar devedor de algo que não te interessa. Vai ser credor da confiança de alguém, por quê? Por que se colocar no papel de namorado, marido se não é o que quer? Quem te obriga? - Querer viver todas as possibilidades... - Mas não dá para se viver todas as possibilidades. Devemos escolher... - Escolher a mentira? - Isso é uma escolha. - É? - Pelo menos quem escolhe a mentira parece acreditar nisso. - E então? - Nada de novo. Já sabemos que uma mentira vai sempre trazer problemas... - Às vezes vale a pena. - Só se for uma mentira temporária. - Mentira temporária? - Você mente e confessa depois. Mas na hora em que a comete já sabe que é um erro. É como se fizesse um pacto com a sua consciência, suspendesse a culpa até a hora da verdade ser dita. - Dá para fazer isso? - Depende de quem seja a pessoa. - Ahn? - Uma pessoa que saiba que mentir não é o melhor caminho, mas é o único possível em uma determinada situação. Mente, depois se perdoa e conta a verdade a quem de direito. Eu não acho muito seguro, mas a pessoa pode estar querendo tirar algo a limpo. - Mas vai machucar alguém. - Isso, sempre. Sempre. - Quando o assunto é mentira somos todos hipócritas? - O que seria da hipocrisia se não fosse a mentira? Não existiria hipocrisia no mundo. Aliás, o hipócrita é um dos piores mentirosos que conheço, é um dos mais covardes... - Por quê? - Porque sabe que a verdade é outra, mas prefere acreditar na mentira. Prefere viver de uma maneira mentirosa, para si e para o mundo. - Mas nem todos estão preparados para todas as verdades. - E quem vai decidir isso é o mentiroso? - Como fazer? - Melhor não fazer trato que não vá cumprir. Se não puder ser 100% verdadeiro, seja discreto, não se exponha a perguntas. - Por quê? - Para não ter que mentir. Viva abertamente o que pode, negocie o resto com sua consciência. Mas tente ser uma boa pessoa. - Entendi. posted by me 13.9.04
Se existe livre arbítrio? Acredito que sim. Deus deve ter mais o que fazer do que ficar arquitetando pequenas causalidades como uma dor de cabeça para te fazer ir até a esquina para conhecer seu príncipe encantado ou encontrar a morte num atropelamento. Isso sem dizer que você pode pedir um analgésico pelo telefone... Daria trabalho demais para ele pensar nessas teias todas entre nós humanos.
Quando foi que nos proibiram de envelhecer? Eu nem percebi. Quando me dei conta já tinha virado parte da manada que faz reformas na carne pensando em melhorar. Melhorar pressupõe um parâmetro. E o que seria melhor ou pior? Melhor, mais novo. Pior, mais velho. Cara lisa é sempre melhor... Calma, não sou eu que estou dizendo isso, só estou arrotando o que tenho engolido por aí, nas calçadas, nas revistas, na TV, nos filmes... Quanta gente bonita!
Não que a vida vá ficar mais longa - e quem quer a certeza de ser longevo? O que foi vivido não vai ficar menor e o que poderá vir ainda não existe e pode nem acontecer. A morte é uma possibilidade para todos, para os mais novos, os recém-nascidos e para os mais velhos, que só parecem mais perto da morte porque viveram mais que os outros, e isso deveria contar como um dado positivo. Quem tem mais vida não é quem vive há mais tempo? A vida que ainda se tem para viver não é incalculável em sua duração? Do que estamos falando afinal? De expectativas ou de fatos? Tudo o que temos é o dia de hoje, ou melhor, é esse momento em andamento. E um hoje melhor, mais bonitinho, é o que a cultura da beleza parece nos oferecer. Nesse sentido, ser mais bonita está cada vez mais fácil, principalmente quando o parâmetro de beleza está totalmente vinculado à juventude. Como se não houvesse uma juventude feia, ou uma idade madura bela. Mas deixa pra lá.
Poderia gastar horas e horas tentando entender, fazendo perguntas, sugerindo respostas. Mas esse assunto é inesgotável, e nem estou tão interessada nele assim. Não é a futilidade que me preocupa, o que me tira do sério é a existencialidade mesma. Estar existindo sempre foi duro para mim, nunca me senti muito à vontade em estar vivendo. Sempre questionei a vida... A morte não: é fato, vai acontecer. O pior é passar pela vida e não ter vivido. E sinto isso comigo às vezes.
Mas dou risada, penso que prestar atenção demais é assim mesmo. Ainda não me acostumei com a idéia de estar viva, de existir. Eu já nasci? E tenho quase 40. Quase 40! (Ó, fui checar a tal citação e um estudioso do filósofo disse que não era bem isso...)Mas, como li outro dia alguém citando Nietzsche, "sempre tive 40 anos", sempre achei que não dava mais tempo, que era tarde... Hoje até me sinto melhor, porque essa sensação de ser velha é mais procedente. E me sinto aliviada de já ter vivido minha cota até aqui. Consegui chegar aos 38! É, deu um trabalho danado. Muita tensão e reflexão. Até que optei pela espontaneidade e a observação. A meditação e o zen budismo reciclado à minha maneira.
Não sou eu que não levo a vida a sério. É ela que não faz nenhum sentido.
Mas quem disse que a vida tem que fazer sentido? Fazer sentido é outra coisa. A vida é só pra ser vivida mesmo. Vivida.
Essa conversa toda me dá quase uma tristeza. Eu sinto infantilidade no tema. Viver... Alguém ainda pensa a vida filosoficamente? Estamos todos tão ocupados vivendo que nem nos damos conta. Eu sempre me dei conta demais de quem sou. E quando queria delimitar minha existência acabava percebendo que sou parte do contexto, não consigo ser sozinha, atemporal, sem todas a influências, muitas desagradáveis, do tempo em que vivo.
Blá blá blá.
Quando a gente não faz o que deve fazer. Quando a gente opta por não fazer, por ignorar, por decidir pelo improvável. Pagar o preço, correr o risco da escolha torta, da vontade de ir por outro caminho, de desafiar quem se é. E vai-se em frente. Vai-se. Vai-se quebrar a cara olimpicamente, e por vontade própria e mal acabada. Vontade de ser outro sem ser. Vontade de testar o que acredita e ir ver o outro lado, viver o diferente, fazer o que seria descartado acontecer. E viver tudo o que virá depois de, entre o sim e o não, optar pelo não, seguir o caminho do instinto às avessas, como se ludibriasse o destino, como se fizesse uma escolha insensata nos moldes de quem se é para fazer sentido quando for a outra pessoa que surgirá a partir dessa escolha.
Experimente e veja.
Estou no meio de mais uma arrumação no meu quarto. Hoje me dedico a organizar os sapatos. Volta e meia dou uma geral, troco as roupas de lugar, separo o que não me serve, ponho à vista o que não tenho usado, invento outras combinações... Flora, grande amiga da família - pequena em estatura, verdade, tem a altura da minha filha de oito anos - tem explicações muito pessoais para as bagunças que fazemos, algo a ver com ser o reflexo da bagunça que vai por dentro da cabeça. Não sei se concordo, mas o que sinto é que pôr as coisas em ordem organiza a cabeça também, e que é quando eu estou mais cheia de pensamentos desencontrados e questiúnculas inúteis que resolvo arrumar as coisas de casa. E depois da organizada sempre me sinto mais inteira.
Estou com dois clips no cabelo, porque ainda não posso prendê-los para não marcá-los, como me ensinou o cabeleireiro que fez minha escova progressiva. É uma escova com uma carga química que promete recuperar os fios e deixar os cabelos mais bonitos, sem ter que fazer escova depois de lavar. Não que eu fizesse escova, nem gosto, porque fica meio lambido, mas meus fios estavam elétricos e bem quebrados; fiz mais como tratamento mesmo. Tomara que funcione.
Agora, depois de ter dado um retoque fantástico no meu nariz e investido no cabelo, estou muito mais bacana. Já não faço careta pro espelho. A beleza só atrapalha a quem não a tem mesmo. Agora que estou quase o melhor de mim, estou me sentindo levinha, levinha. Já penso até em deixar o namorado. Ando com preguiça de fazer sexo. Má vontade mesmo - sabe como é? Não sabe? Sorte sua. Mas eu adoro sexo... Tudo bem, é um mero transtorno bipolar concentrado na pelvis. Tem dias em que está solta, solta, tem dias que cama só me dá mesmo vontade de dormir. Dormir é bom demais!
O namorado me trouxe de volta no sábado à noite porque eu não queria nada com ele. Quando cheguei na casa dele a promessa era de um reveillon fora de época com muita sacanagem. Estávamos animados. Eu já sabia que a minha pilha estava fraca, mas esqueci do cansaço quando começamos a nos beijar no sofá da sala; rapidinho nos livramos das roupas e fomos pra cama. Foi sodoma-e-gomorra total - sabe aquele gozo de ver a morte? Foi tão intenso, mas tão intenso que acabou com toda a minha energia. Foi como se eu estivesse sido desligada da tomada. Entendi o velho clichê do cara que goza e dorme na seqüência. Precisava dormir. Fiquei com preguiça de sexo. E o namorado ficou puto. Ele às vezes é meio insaciável mesmo. Eu estava saciadíssima, tive sexo pra uma semana. Joguei a toalha. Assim que ele reivindicou mais disposição só consegui balbuciar "Me leva pra casa?". Deu uma briguinha, mas acabei tomando um banho e partindo em retirada. Saudades da minha caminha.
Meia hora depois de já instalada sob meus lençóis o bofe me liga querendo respostas. Vai ver só estava checando se eu estava em casa mesmo; sei lá. Ele sempre acha que estou ciscando por fora. Eu, hein, mal tenho dado conta de um. Disse pra ele que não ia prometer mudar nem nada. Ele ameaçou não ter como continuar assim e tal. Estava com sono e com preguiça. Quero minha vida e meu tempo só pra mim, pô. Se não tiver bom, vai procurar outra. Ah, cansei. Ter uma cama e dormir era tudo o que precisava. Ele disse que era para eu pensar. Pensar??? Ando cansada demais pra isso.
O IPVA não tinha sido pago até o décimo mês do ano; parcelou a dívida em três vezes e só pagou a primeira, inevitável para a divisão acontecer. Deixou as duas outras seguirem com o tempo. IPVA ainda atrasado, beleza em dia. O dinheiro que parecia que iria sobrar no fim do mês era gasto na primeira e segunda e terceiras oportunidades para enfeitar sua pessoa. Ela vinha brincando de ser mais bonita. Já tinha mudado o nariz e o cabelo. Outras mudanças menos drásticas aconteciam no figurino. Os miolos careciam de ajuste. Mas a vida ia seguindo de um jeito meio bom. Travesseiro pesado com a cabeça quente de todas as noites, cabeça que se recosta e não ganha sossego. É essa pessoa em desespero de ser.
Mas não era isso que Mariza enxergava. Ela era alegre desse jeito. "E o futuro demora a acontecer", parecia pensar. "Deixa o tempo fazer seu trabalho que eu vivo o hoje do jeito que eu quero", dizia seu suspiro.
Não, não era poesia o que ela fazia. Mas a vida estava mais literatura do que nunca.
Eu sempre quis escrever. Ser escritora era o de menos, tinha era que fazer alguma coisa das palavras que se amontoavam na minha cabeça. Depois fui vendo que havia palavras cuja sonoridade não conhecia, eram mais como impressões sem letras, idéias ainda não batizadas... Sentimentos que não tinham tradução no dicionário. Conheci também palavras novas, sentimentos já batizados pelos filólogos e por mim ignorados. Fui mexendo com as idéias dessa maneira, trocando dores de existir por palavras mal escolhidas. Não deu pra explicar direito o que meu corpo sentia, mas achei que estava resolvendo meu problema de tanto pensar. Mesmo que pensasse tanto sem palavras.
Hoje não vou usar palavras de fácil calão para dizer que a vida é assim mesmo, essa merda e essa maravilha toda.
Mas eu estou sem assunto e ainda quero falar - não somos todos assim? Mesmo tendo uma preguiça de escrever que me cala quando mais gostaria de ter forças para tirar de mim algumas linhas e justificar esse blog. Não que ele precise ser justificado, mas vê-lo calado é chato, mesmo que poucos o leiam. Por que temos tanta preguiça com as palavras nos dias de hoje, com as escritas, principalmente? Eu gosto de ler e mesmo assim é difícil parar a vida célere e siderada que levo para entrar no ritmo de um bom livro. Depois que consigo o espaço necessário, ah, que delícia. Eu me esbaldo com a felicidade de papel que um bom texto me dá. Não um como esse aqui, que carece de conteúdo, mas um que me venha de mansinho, ficando amigo, criando intimidade com gosto. Muito bom é ler. Muito melhor é ler uma idéia que nos abale, e se possível, de forma positiva, que nos torne a vida menos detestável e que resuma o prazer de ler na carne.
Até a próxima.