BLOG DE FICÇÃO, EXERCÍCIO LITERÁRIO E ALGUMAS VERDADES.
Acredite nas mentiras; desconfie das verdades.
Ah, o espaço para delírios é mais embaixo. Mais embaixo, sempre, né?
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domingo, setembro 12, 2004
Jogando o delírio no ventilador
O IPVA não tinha sido pago até o décimo mês do ano; parcelou a dívida em três vezes e só pagou a primeira, inevitável para a divisão acontecer. Deixou as duas outras seguirem com o tempo. IPVA ainda atrasado, beleza em dia. O dinheiro que parecia que iria sobrar no fim do mês era gasto na primeira e segunda e terceiras oportunidades para enfeitar sua pessoa. Ela vinha brincando de ser mais bonita. Já tinha mudado o nariz e o cabelo. Outras mudanças menos drásticas aconteciam no figurino. Os miolos careciam de ajuste. Mas a vida ia seguindo de um jeito meio bom. Travesseiro pesado com a cabeça quente de todas as noites, cabeça que se recosta e não ganha sossego. É essa pessoa em desespero de ser.
Mas não era isso que Mariza enxergava. Ela era alegre desse jeito. "E o futuro demora a acontecer", parecia pensar. "Deixa o tempo fazer seu trabalho que eu vivo o hoje do jeito que eu quero", dizia seu suspiro.
Não, não era poesia o que ela fazia. Mas a vida estava mais literatura do que nunca.