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{domingo, setembro 12, 2004}

 
(Sem título)

Quando foi que nos proibiram de envelhecer? Eu nem percebi. Quando me dei conta já tinha virado parte da manada que faz reformas na carne pensando em melhorar. Melhorar pressupõe um parâmetro. E o que seria melhor ou pior? Melhor, mais novo. Pior, mais velho. Cara lisa é sempre melhor... Calma, não sou eu que estou dizendo isso, só estou arrotando o que tenho engolido por aí, nas calçadas, nas revistas, na TV, nos filmes... Quanta gente bonita!
Não que a vida vá ficar mais longa - e quem quer a certeza de ser longevo? O que foi vivido não vai ficar menor e o que poderá vir ainda não existe e pode nem acontecer. A morte é uma possibilidade para todos, para os mais novos, os recém-nascidos e para os mais velhos, que só parecem mais perto da morte porque viveram mais que os outros, e isso deveria contar como um dado positivo. Quem tem mais vida não é quem vive há mais tempo? A vida que ainda se tem para viver não é incalculável em sua duração? Do que estamos falando afinal? De expectativas ou de fatos? Tudo o que temos é o dia de hoje, ou melhor, é esse momento em andamento. E um hoje melhor, mais bonitinho, é o que a cultura da beleza parece nos oferecer. Nesse sentido, ser mais bonita está cada vez mais fácil, principalmente quando o parâmetro de beleza está totalmente vinculado à juventude. Como se não houvesse uma juventude feia, ou uma idade madura bela. Mas deixa pra lá.
Poderia gastar horas e horas tentando entender, fazendo perguntas, sugerindo respostas. Mas esse assunto é inesgotável, e nem estou tão interessada nele assim. Não é a futilidade que me preocupa, o que me tira do sério é a existencialidade mesma. Estar existindo sempre foi duro para mim, nunca me senti muito à vontade em estar vivendo. Sempre questionei a vida... A morte não: é fato, vai acontecer. O pior é passar pela vida e não ter vivido. E sinto isso comigo às vezes.
Mas dou risada, penso que prestar atenção demais é assim mesmo. Ainda não me acostumei com a idéia de estar viva, de existir. Eu já nasci? E tenho quase 40. Quase 40! (Ó, fui checar a tal citação e um estudioso do filósofo disse que não era bem isso...)Mas, como li outro dia alguém citando Nietzsche, "sempre tive 40 anos", sempre achei que não dava mais tempo, que era tarde... Hoje até me sinto melhor, porque essa sensação de ser velha é mais procedente. E me sinto aliviada de já ter vivido minha cota até aqui. Consegui chegar aos 38! É, deu um trabalho danado. Muita tensão e reflexão. Até que optei pela espontaneidade e a observação. A meditação e o zen budismo reciclado à minha maneira.
Não sou eu que não levo a vida a sério. É ela que não faz nenhum sentido.
Mas quem disse que a vida tem que fazer sentido? Fazer sentido é outra coisa. A vida é só pra ser vivida mesmo. Vivida.

Essa conversa toda me dá quase uma tristeza. Eu sinto infantilidade no tema. Viver... Alguém ainda pensa a vida filosoficamente? Estamos todos tão ocupados vivendo que nem nos damos conta. Eu sempre me dei conta demais de quem sou. E quando queria delimitar minha existência acabava percebendo que sou parte do contexto, não consigo ser sozinha, atemporal, sem todas a influências, muitas desagradáveis, do tempo em que vivo.
Blá blá blá.

posted by me 12.9.04

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