BLOG DE FICÇÃO, EXERCÍCIO LITERÁRIO E ALGUMAS VERDADES.
Acredite nas mentiras; desconfie das verdades.
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sexta-feira, julho 29, 2005
Só Pra Registrar
Tenho uma filha fofa. Tenho um casal de filhos fofos. E hoje minha filha disse um negócio que foi muito bonitinho e vou registrar aqui. Já era meio tarde, quase meia-noite, e ela, mesmo sendo corujinha, me deu uma bronca (é leonina...): "Mãe, vamos dormir, amanhã tenho que ir cedo para a casa da minha avó; ela vai fazer pudim de leite e frango assado pra mim". Gente, nem preciso dizer que os olhinhos dela brilhavam quando ela falou essa frase. E meu coração esquentou. Foi tão bonitinho ela dizendo isso. E imaginei que gracinha a conversa da avó com ela dizendo que amanhã é dia de pudim de leite e frango assado. Pra que o resto, né? Nada seria tão bom quanto ela me dizendo isso daquele jeito que só a filha da gente sabe dizer.
A gente se olhou daquele jeito e tudo poderia acontecer. Não, não tinha sido a cerveja, não tinha sido a fome, nem a pressa de que aquele olhar acontecesse. Foi um olhar de encontro, de reconhecimento, de autorização. Olhar que se impôs sem pedir licença a nenhum de nós; olhar que não poderia ser premeditado, inventado nem dissimulado. Olhar que não saberia se repetir para outra pessoa. Olhar de nós dois, de um para o outro. E esse olhar só existe quando é recíproco; não se olha assim sozinho, só se olha assim com o outro. Um olhar que não pensa em porquês, em comos, em quandos. Olhar que só olha e confirma. Mesmo que não se saiba que nome dar ao que ali foi confirmado. Foi um olhar de certeza, de pertencimento, de entrega, de união, de muitas palavras não pronunciadas e desnecessárias. E as palavras fizeram silêncio sem que se contasse com isso. O que tinha que acontecer estava acontecendo e sabia o que fazer. Não éramos nós, era aquele olhar. Estamos olhados até agora. Com olhos que trocaram de lugar um com o outro. O olhar dele era meu, ele olhava de mim para ele; eu olhei com os olhos dele, eu estive dentro daqueles olhos. Às vezes uma sexta-feira dá mais certo que as outras. posted by me 17.7.05
E daí que não faz sol? Eu quero ir à praia. E daí que está chovendo? As nuvens que se espalhem, ora.
E daí que fui eu que não o quis mais? Agora eu quero... Quero que ele se foda!
E daí que isso não é bonito? E daí que eu sou uma pessoa incoerente? E daí que eu tenho um lado meio mesquinho e outro mais ou menos correto? E daí que hoje é o dia do lado mesquinho? E daí que meu lado correto já notou e está me alertando?
Quero que meu lado corretinho se foda, que vá ser bonitinho em outro canto.
E daí que não se deve ser assim? Vou ser assim mesmo, me alimentar do meu ódio.
E daí que depois eu vou me arrepender? E daí que eu vou achar que cometi um erro, que fui infantil, que estava na TPM e poderia ter agido de outra maneira, ou nem agido de maneira nenhuma? E daí?
Vou e faço assim mesmo. Porque agora é hora do que é errado...
E é assim que eu erro. Vou, não penso e faço. Ou penso, vou e faço assim mesmo.