BLOG DE FICÇÃO, EXERCÍCIO LITERÁRIO E ALGUMAS VERDADES.
Acredite nas mentiras; desconfie das verdades.
Ah, o espaço para delírios é mais embaixo. Mais embaixo, sempre, né?
Bem-vindo. Deixe um comentário.
segunda-feira, maio 23, 2005
As coisas têm sua exata medida, têm seu reflexo, seu tamanho, sua marca, sua impressão no tempo e espaço. Elas são o que são. E não mais nem menos. E não outras palavras. As coisas não são palavras. As coisas são ações, são fatos, são consistência de si, são existência, são existir.
E a gente fica ali vivendo uma coisa que poderia ser diferente, vendo o que acontece como sendo o que é possível - apenas o possível, às vezes desajeitadamente o possível.
E as coisas mal feitas também são coisas, também são o que elas podem ser, do jeito que deu.
Como estar pela metade? Como estar com medo? Que tipo de pessoa é essa? Do tipo que finge que vive, enquanto não morre? Que faz com medo o que era para se fazer por inteiro? E, mesmo com medo, acha que isso é que é ser feliz?
Para tudo há que haver um envolvimento mínimo necessário. E quanto é o mínimo, nem sempre se acerta. Menos que o mínimo não constrói.
E eu que só queria viver tive que raciocinar. Raciocinar é uma merda. A gente só tem que raciocinar quando algo já deu errado. Viver é respirar. É rio que flui, é caminho que se anda. Não é pra ficar pensando em tudo, pensando em como se faz. É pra se fazer.
E eu que só queria viver tive que ouvir que minha verdade não fazia sentido ali. Que aquele era o lugar do medo e da mentira. E eu não caibo lá.
Marisa se pegou sem nenhuma preocupação, assim, do nada. Talvez fosse começar a se preocupar com isso, com sua vacuidade de problemas àquela hora. Mas não, quando deu por si olhava a estante, lia os títulos das lombadas dos livros e fazia perguntas para ninguém: "você daria para essa mulher?"; "você comeria essa mulher com esses livros na estante?" Risos. Como se perguntasse: "você compraria um carro usado deste homem?". Marisa gostava dos livros que tinha, tinha até uns mais populares, umas compilações, uns com jeito de manual, que nem faziam muito bonito, mas e daí? Estavam todos lá pra quem quisesse conhecê-la melhor, porque os livros das pessoas dão muitas pistas sobre quem elas são. Os dela pediam uma organizada para deixá-la ainda mais interessante - agrupar os títulos afins, os estilos... Uma hora dessas ela iria fazer isso. Talvez. &&&
E se viu lembrando de três noites atrás, quando descobriu o que Murilo gostava de ler. Murilo, um amigo de verdade que, sentindo a carência da moça, resolveu retomar uma antiga atração que sentira por ela quando a conheceu, uns oito anos atrás, numa das rádios por onde ela passou. Marisa tinha namorado na época, e Murilo não tentou nada. Agora era tempo; Marisa estava ali, toda linda e disponível... E isso também é ser amigo.
Ele gostava de ficção. Tinha até Dan Brown - que parecia estar ali mais pra constar. A própria Marisa disse pra ele que tentou ler o tal livro, mas não agüentou - "dá muito trabalho..." Ele riu, disse que também não conseguira e que só vinha lendo Paul Auster - que tem mais conteúdo, e faz bonito. E ela esteve dias antes com aquele livrinho de capa azul do Auster nas mãos, mas saiu da livraria com a biografia do Paulo Leminski e o romance dele Agora é Que São Elas, mesmo já estando ocupada (não) lendo Afinidades Eletivas do Goethe, que sempre que interrompia voltava com mais preguiça na retomada (é um livro que necessita de tempo, não dá para ler poucas folhas por vez; só fica bom com envolvimento, com pelo menos uns três capítulos preliminares para se entrar no clima do romance - ou para ficar com sono, como vinha acontecendo com ela). Acabou lendo A Troca Impossível, de Baudrilllard, inteirinho, num desses intervalos.
Marisa só se deu conta dos livros de Murilo quando tentou, sem muito sucesso, se levantar daquele colchão enorme de casal plantado no chão e começou a tropeçar neles, como se fossem paralelepípedos espalhados pelo caminho. Já era hora de tomar um banho e voltar pra sua vida. "Ih... Tô no quarto do Murilo... Tsc tsc tsc... Sem ressaca moral, por favor!".'Tuc!'- chuta um livro - "Porra de lugar cheio de livro... Caralho" -conversava consigo mesma tentando achar a saída daquela armadilha.
Day after é sempre meio constrangedor. Mas a night before aconteceu sem sobressaltos. O cara trabalha com música... Junto com vinho tinto então... Só não faltou sexo. Acabaram no escurinho do quarto dele, cabeças cheias de vinho e de sacanagem. E música eletrônica de qualidade dando o tom.
Foi até, quase, bom.
&&&
No quarto de Marisa os livros também se empilhavam - eles não moravam lá, mas ela os ia levando à medida que um chamava o outro. Organizando a bagunça, lembrou de uma lista com os nomes dos caras com quem já transara que tinha feito no final de um desses livros - precisava atualizá-la e queria refrescar a memória também ... "Mas onde está essa lista?!". Ela só lembrava que tinha anotado na última página de um dos livros que folheara nas últimas três semanas - um impulso a levou a fazer essa contabilidade absurda, com medo que se esquecesse de um ou outro nome com o passar dos anos; e nem foi a primeira lista, e volta e meia estava na rua fazendo outra coisa quando lembrava de um nome que tinha deixado de fora...
Poderia estar no final de um livro da Hilda Hilst, de um do Manoel de Barros, do Afinidades do Goethe, do tal do Baudrillard, do André Comte-Sponville... Não achava... Desistiu. Será engraçado quando Marisa for surpreendida com essa lista quando for reler alguma coisa - e a partir de agora ela sempre checará a última página de seus livros à procura desses nomes perdidos...
O nome de Murilo ela terá que guardar na memória por mais algum tempo... posted by me 10.5.05
Dizer o que do tal 'chopp' com o Marcelo II? Dizer que tomaram três tulipas do gelado e partiram pra um motel no bairro mais engarrafado do Rio? Dizer que o motel estava lotado, mas que deram um jeito de fuder assim mesmo, depois de uma espera de meia hora na garagem da suíte que estava sendo arrumada pro crime? Dizer que ganharam drinks de cortesia para ficarem quietinhos e sem reclamar dentro do carro naquele estábulo improvisado até que pudessem se livrar de suas roupas? Dizer que Marcelo deixou cair cerveja no banco do carro, que Marisa riu muito disso e acabou tendo vontade de fazer xixi? Dizer que numa atitude moderna e ousada Marisa saiu do carro, levantou a porta da garagem do lugar secreto e foi à recepção do motel perguntar onde tinha um banheiro que ela pudesse usar, passando por uma fila de outros carros à espera de outros quartos? Dizer que achou tudo hilário, que entrou na portaria do motel por uma saída de emergência e usou o banheiro da entrada principal - aquela por onde ninguém passa, já que a maioria vai mesmo é de carro e entra pela garagem e não pelo lobby? Dizer que voltou rindo por dentro, abriu a garagem de novo e entrou no carro cheia de tesão pro macho que a esperava no banco do carona e que em breve estaria nu diante dela, mostrando o que sabia fazer a dois? Dizer que a funcionária do motel avisou que o quarto estava arrumado e que poderiam entrar? Dizer que entraram? Dizer que pegaram mais uma cerveja, beberam no mesmo copo e partiram para o ataque? Dizer que o cara gostou da depilação de puta que ela tinha feito na véspera? Dizer que ele usava cueca preta de algodão e quando ela tirou a cueca dele o pau pulou pra fora grosso, duro e enorme, pronto pra um boquete? Dizer que se beijaram de cima a baixo e que foi bom e bom e bom? Dizer que ela saiu de lá querendo mais e que tiveram mais em outra tarde de luxúria? Dizer que se sentiu puta e ótima? Não; essas coisas a gente não conta. Deixa de ser curioso. Vai inventar sua vida.