BLOG DE FICÇÃO, EXERCÍCIO LITERÁRIO E ALGUMAS VERDADES.
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sexta-feira, janeiro 27, 2006
"MAIS UMA DOSE... É CLARO QUE EU ESTOU A FIM"
De vez em quando eu tomo um martini imaginário. Tomo um drink desse tipo, um desses que nunca tomei, cujo gosto nem sei qual é... Mas já que só imagino que bebi o martini, tanto faz. O gosto é de alguma dor. Não é dor ruim. É a dor dos poetas inspirados... E me sinto cheia de palavras. Vou escrevendo alguma coisa aqui, outras vou pensando sem legenda. Não consigo traduzir tudo o que sinto, porque esses sentimentos estão em mim, mas não são meus. Não os vivo, só os tenho; são eles que vivem em mim de algum jeito mórbido, como o órgão doado a quem precisava. Precisava sentir alguma coisa e bebi o martini. O gosto é de dor de segunda mão, dor semi-nova, dor emprestada. Mas o martini também não era de qualidade, como a idéia desse texto aqui. posted by me 27.1.06
- Tô sofrendo um pouco, mas tudo bem, tô com tempo pra isso agora, né? - Tempo? - É, agora que você não está aqui comigo, que a gente não se encontra mais... Tenho mais tempo agora. Tenho tempo pra sentir sua falta até a dor dessa falta acabar. Não tem problema. Eu vou sentindo isso sem tentar explicar nada. Paro, choro, sofro... Depois lavo o rosto e vou viver um pouco. Tem sido assim. E quando isso passar passou. Não vou lutar contra esse sentimento. É uma tristeza bonita, de algum jeito. É o lugar onde você vive em mim agora. Mas não pense que só sofro. Eu me pego gargalhando do que acontece de engraçado, sentindo o sol arder quando faz sol, a chuva molhar quando chove; até escovar os dentes tem sido um momento de êxtase. Beber uma caipirinha de Absolut, algum chopp com alguns amigos... Até o lado bom de malhar na academia está melhor. Parece que agora eu mereço tudo muito mais. E me mereço mais por isso também. Agora nem preciso mais de você pra ser feliz. Mesmo ainda te chorando, não te quero mais. Você deixou de ser a pessoa certa, apesar de nunca ter sido. Não tem problema nenhum. É só a vida acontecendo. E isso é bonito de algum jeito. posted by me 27.1.06
Foi assim, como se eu não esperasse nada àquela altura; ia vivendo sem sentir a vida passar - ao menos não doía àquela hora. Era o fim. Fim do ano. Último dia, última noite. E o telefone toca, sem que eu soubesse que poderia ser ele, sem que eu ousasse querer tanto, sem que eu me inventasse ser feliz daquele jeito. Eu atendi. Depois entendi. Às vezes a vida ri da nossa cara do seu melhor jeito. Vida que caminha, que se encaminha, que nos desencaminha. Houve então aquele instante, o telefonema e tudo o que se seguiu. Sem que nenhuma força fosse necessária, de um jeito que só bastava que eu estivesse ali. E ele. E estávamos. Houve também a chuva, a multidão na praia, as flores que já anunciavam a sujeira do dia seguinte, os pés na areia, a água fria do mar, todo aquele suor e a fumaça no ar. Muito barulho, menos barulho, alguns barulhos. O carro parado, o trânsito lento, o pernas pra que te quero, os corpos que também querem. Passos, passos; algumas quadras, nenhuma dúvida. Nos sabíamos ali desde o começo. E me peguei vivendo. Ouvi muitas palavras, faladas e cantadas. Depois alguns gemidos e suspiros. Café da manhã não houve, aquela manhã ainda era noite que se estendia. Eu não queria mais ir embora, mas o medo de ser expulsa me fez não estar lá ainda agora.
Feliz ano novo. Fizemos por merecer esse último instante.