O Terceiro Dia, a Terceira Vez, o Terceiro Encontro
Talvez estejamos nos preocupando demais com a primeira vez. Talvez não tenhamos ainda dado a verdadeira atenção que a terceira vez merece. Por exemplo, essa semana entrou uma frente fria na cidade, e assim que começou a chover eu fiquei pensando o que seria de mim, como iria enfrentar uma chuva forte, e ameaçadora, principalmente quando estamos falando do Rio de Janeiro, terra de arrastões, balas perdidas da guerra do tráfico e alagamentos... Bem, fiquei pensando como seria difícil ir trabalhar com o mau tempo; teria que reparar se os pneus do carro estavam bons, se as palhetas do limpador de pára-brisa estavam gastas, se as pastilhas do freio não estavam vencidas... Teria que minimizar meus riscos. No primeiro dia, quando desci para garagem e vi que não teria como escapar, que teria mesmo que ganhar o mundo sozinha ao volante do meu carro com aquela chuva - que não era forte, mas que poderia ficar - , fiquei tensa. As palhetas estavam mesmo gastas, mas não tinha os 90 reais para trocá-las; a análise das pastilhas ficou para uma próxima vez, quando o tempo melhorasse, porque não tive coragem de ir à oficina (com chuva tudo fica mais longe..); os pneus pareciam ok - mas eu podia estar enganada... Mas a chuva não estava forte...
Fui trabalhar. Parecia impossível, mas o trânsito estava ótimo. Talvez motoristas mais assustados que eu tivessem desistido de sair com o mau tempo; muitos encontros podem ter sido cancelados; muitas reuniões adiadas; e os que iriam apenas passear resolveram ficar em casa... A rua estava mais vazia. A chuva não me assustava mais, pelo contrário, servia muito bem à música tranqüila que tinha escolhido para a viagem. E fui em paz. Fui e voltei, sorrindo e cantando como nunca. Tudo correu bem.
No dia seguinte, céu ainda carregado, e a chuva mais forte e ameaçadora. Pensei que na véspera tudo correra bem e fui sem medo. A chuva ficou mais forte, a rua ainda estava vazia, mas as palhetas do carro incomodaram, tiravam a chuva, mas embaçavam o vidro a cada limpeza; terei mesmo que trocá-las. Mas correu tudo bem.
Terceiro dia de chuva, já nem ligava mais, pensava que seria uma delícia ouvir a trilha do Mulholland Drive com aquele tempo. Eu me sentia num filme noir... Estava tudo molhado, lindo e ótimo. Foi o dia que me fez perder o medo. A chuva e eu éramos íntimas agora. Não ia maldizer as nuvens que insistiam em molhar a cidade. Deixa chover... Entendi tudo.
No quarto dia a chuva começou a se dissipar, as nuvens abriam buracos e já se notava o céu azul aqui e ali. Não iria mais chover, decerto. Uma amiga partia. E até comecei a sentir falta daquela convivência. Na próxima vez que chover, nem vou ligar. Vou deixar para ligar só quando algo sair errado. E chover não é errado, afinal.
E assim me dei conta que foram necessários três dias para eu me adaptar àquela situação de dirigir por 40 quilômetros com chuva. No terceiro dia já estava habituada como nunca. Não havia mais medo, só aceitação. Aí me dei conta de como a terceira vez é consagradora. Na primeira, a gente vai porque tem que ir ou porque acha que deve... Na segunda, ou porque não há escolha, ou porque a primeira nem foi tão ruim... Mas é na terceira que tiramos a exata medida da nossa impressão. E isso parece ser assim com tudo.
Ir à academia no fim-de-semana, por exemplo. Na primeira vez vamos para ver como é, na segunda porque achamos que dá pra agüentar e nem foi tão ruim na primeira vez; mas é na terceira vez em que passamos algumas horas do sábado e/ou do domingo na academia que realmente percebemos se faremos disso um hábito. Eu não faço. E vi que é melhor cumprir minha rotina de malhação de segunda a sexta e não contar com o fim-de-semana pra recuperar eventuais faltas. Faltei, tá faltado, bola pra frente, eu que me esforce pra dar conta de malhar durante a semana, eu que aprenda a me organizar. Fim-de-semana pra mim é só pra descansar mesmo, e esquecer do relógio...
Encontros românticos ou tentativas de encontros românticos: na primeira vez caprichamos no visual, tentamos relaxar de tarde para agüentar a noite com mais disposição e com o rosto mais descansado, imaginamos tudo de bom que poderá acontecer, pensamos no programa que faremos, em como ele será, como irá se comportar... Na segunda vez que vamos sair com a mesma pessoa, a expectativa já é menor, já nos sentimos mais relaxados, já nos sentimos mais aprovados, já não queremos impressionar tanto, já estamos mais extrovertidos, já acreditamos que poderá ser uma noite tranqüila... E é aí que conseguimos ver melhor o outro, conversar melhor, ouvir melhor, reparar melhor... E se houver um terceiro convite, e se a gente aceitar o terceiro convite... Aí, é porque estamos prontos para o que vier depois; estamos querendo que venha algo depois; estamos minimamente interessados em nos relacionar... Não é mais simples tentativa, simples experiência, simples curiosidade; pode ser o começo efetivo de um relacionamento. É hora de sermos quem somos sem máscaras e sem tanta formalidade. É hora de sermos quem somos para aquela pessoa que vai começar a fazer parte da vida da gente.
Pensando assim vejo que o primeiro encontro não é lá tão importante. Ele é necessário, claro, ou não conseguiríamos um segundo e um terceiro encontros. Mas não é o principal. No primeiro encontro está tudo meio embaçado, ninguém enxerga muito bem o outro mesmo - talvez as palhetas estejam gastas -; ninguém é quem é de verdade, todos pisam em ovos, tentam causar boa impressão. O segundo encontro também tem seu valor; algumas dúvidas serão tiradas, outra chance de agradar de novo, outra chance de ver o outro... Mas pode também ser a hora em que a magia acaba, em que a afinidade não se instala...
O terceiro encontro é o encontro que vai decidir; é o que vai passar a segunda marcha ou desligar o motor...
Então, seja mais generoso com o terceiro encontro. Mas não vá fazer dele um novo primeiro encontro, porque já não há mais tempo. A primeira impressão a gente nunca esquece. Mas é da terceira impressão que a gente devia se lembrar mais...
posted by me 22.6.05