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{terça-feira, março 16, 2004}

 
MOMENTO ECLOSÃO DE IDÉIAS.

Freneticamente eu mesma.




      Pode deixar, não vou usar um termo parecido em inglês, brainstorm - já usei, né? - , dar uma de personagem da novela das oito que pontua suas falas com expressões em inglês; ninguém merece – e o que dizer dessa e de outras expressões em português que vêm pontuando as frases de todos nós cariocas, paulistas, quiçá brasileiros?


Chega desse assunto.



      Vinha no carro pensando um monte de coisas que vou tentar reproduzir aqui. Passei a viagem pensando em tudo – em tudo mesmo – o andar da senhora na rua; a moto que passou; a que não passou e ficou presa no sinal com um casal na minha frente em demonstrações de contato carnal, ele de capacete, rosto oculto aos olhares, apalpando a perna dela, de fora graças a um short nem tão pequeno que deixava sua pele negra brilhando sob o sol, com uma camiseta branca justa que mostrava que tinha carne sobrando na cintura, com tanta naturalidade que a vergonha que faltava nela passou para mim que parecia reparar no que não era para ser reparado (era só uma mulher à vontade consigo mesma e até com alguma beleza provida por toda sua naturalidade de ser quem era junto daquele homem naquela moto); vi também a beleza do rapaz pobre que vestia uma camiseta de um tom cor de laranja ainda vivo, que poderia ser outra pessoa, se não estivesse ali no sinal vendendo alguma mercadoria indesejada pelos motoristas apressados e assustados com a vida que passam por ele enquanto ele desfila toda sua juventude desperdiçada e todo o potencial que a sociedade lhe sonegou; outro vendedor nessa parada no sinal da Lagoa era mais maduro e me lembrou um amigo classe média que tenho - por que esse sujeito aqui no sinal e meu amigo com uma vida mais ou menos em dia são tão parecidos e tão diferentes? Onde erramos, quando temos que aceitar o inaceitável, que umas pessoas têm oportunidades e outras não?




      Os últimos atentados em Madri também me passaram pela cabeça, se é que saíram de lá desde que deles tive notícia – 200 inocentes mortos quando iam cumprir mais uma jornada de trabalho para o capitalismo que engana que dá oportunidades e vai gerando excluídos como uma usina nuclear gera lixo tóxico, sem saber o que fazer com esse resíduo humano depois. Nada me escapava à cabeça. Mas traduzi esse olhar estroboscópico para o mundo, a vida e a mim mesma, com uma frase: Oba, estou desempregada.


      E que alegria poder me sentir bem com isso. Na verdade acabei de pedir para sair do meu segundo emprego – e esse já é o segundo segundo emprego que arrumo - mas desse pedi dispensa mais rápido: um mês. Foi só eu me sentir mais livre, e olha que ainda fico lá mais uns quinze dias, que a cabeça voltou a funcionar (meio fora de compasso, como se saísse de um coma existencial, mas vai melhorar).

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      Eu me peguei vendo a folha correndo no vento, reparando no brilho do sol sobre as árvores - e sobre as coxas da mulher na moto -, umas coisas assim que a gente podia reparar quando o mundo ainda se preparava para ser o que é – ou o que está sendo - hoje, sem que nos déssemos conta. No Rio de hoje, temos que contemplar o outro, o possível inimigo que pode estar vindo nos assaltar etc.



      Pensei mais coisas, que não consigo lembrar agora; ser atleta dos meus pensamentos nunca foi o meu forte, e o teclado do PC nunca vai tão rápido quanto minhas impressões. “A vida é um puzzle”, já diz uma amiga, e vi que venho montando meu puzzle de um jeito até divertido.



      Claro que andei tímida com a vida e ela comigo, andei farejando a existência sem sentir cheiro de nada, às vezes sentindo cheiro de resto, às vezes de perfume que vinha de longe com o vento, mas não era o perfume da minha vida. Mas quando sentia o cheiro agradável da vida perto de mim, nossa, que delícia. É como um vento dentro da gente, um frescor, uma flor que cheira sem exagero, sem cansar, um calor que não queima, é se sentir existindo de um jeito bom, um momento de êxtase, ou melhor, é como quando a gente se pega saindo do momento de êxtase como quem sai de um sonho, uma vaga idéia de que se estava sendo feliz, algo transcendental acontecendo na gente, uma experiência interior como a explicada por Georges Bataille, que nem só do polêmico olho que liga o interior dos homens ao mundo exterior pela parte de trás escreve...



Digressão.



      Os homens continuam se pegando mundo à fora. Aqui no Brasil, os miseráveis continuam miseráveis, sem saúde, sem educação, sem perspectivas. No exterior, países que pareciam já ter encontrado uma maneira de lidar com seus pobres foram chamados pelos excluídos de outras culturas, países, sei lá, a dar uma resposta (que poderia ter sido política, mas foi mesmo bélica), quando foram duramente informados por ações terroristas do repúdio dessas culturas/ povos/ milícias intolerantes pelas ações e omissões dos donos da bola da economia mundial.

      Os EUA seriam a classe média do mundo e os terroristas os excluídos sociais querendo seus direitos? No carro no caminho de casa me vi tendo essa idéia meio torta. Não é isso; ninguém que lute realmente por direitos age como se o mundo já estivesse na hora de acabar.

      Se você trabalha destruindo o mundo, por que se preocupar como vai estar vivendo amanhã? Como aquela criança que se enche do jogo de cartas ou de tabuleiro e resolve a questão jogando as cartas longe, ou virando o tabuleiro e desorganizando todas as peças.

      Não se sabe o que um terrorista quer. O terrorista é homem de poucas palavras. Não dialoga. Já começa a conversa como monólogo; ataca com ódio antes que algo lhe seja perguntado. Não tem tempo para explicações. Quer só dúvidas e uma certeza: mortes. São tiranos mimados, que só querem o poder de tirar a vida, e isso eles têm.



      Mas essa é uma conversa em que não se sabe quem são os mocinhos. Claro que quem morre pegando trem para ir trabalhar não pode ser acusado de nada, apenas de estar tentando tornar sua vida melhor, pagar suas contas.



Digressão.



      O que eu me vi entendendo hoje é que a vida pode andar do nosso jeito, a gente não tem que chegar aos fatos como se tudo já estivesse pré-estabelecido. Temos que dar a nossa proposta, ignorar algumas regras ou ver se não são regras que estão a ponto de caírem para dar lugar a novas regras. Às vezes chega-se ao fato cinco minutos antes da idéia pré-concebida expirar. É aí que se dá a mágica da sincronicidade. Você contribui para que o que parecia ser um obstáculo caia, e o que surge no lugar te favorece. É estar em sintonia com o contexto.



      Quando o que você quer é legal, traz uma melhora, é feito com prazer e ética isso quase sempre acontece; é como se a vida desce uma chegadinha pra cá, uma chegadinha pra lá e você conseguisse se assentar melhor nela. É muito bom lidar com essa resiliência do impalpável.



Digressão.



      E eu chego correndo em casa doida pra pôr nas linhas o que vinha viajando no carro e vejo um bilhete da minha filha como um lembrete: Regras: não bater; não xingar.
Aos sete anos ela tem muito o que ensinar para os que optaram por uma maneira intolerante de ser. Intolerância, nem contra a violência vem dando certo. Mas os preceitos têm que ser aceitos por todos. Temos que defender os direitos humanos, ou já não poderemos mais falar em humano como adjetivo. As regras da minha filha são para o clubinho que ela e algumas amigas do colégio estão formando, uma pequena sociedade, cada um com um papel - um exercício de vida e convivência.




posted by me 16.3.04

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