Bagunça por dentro e por fora, a vida dela era assim. Indisciplina e desordem reinavam. No quarto, caixas de sapato empilhadas num canto junto à parede lembravam-na de que já havia algum tempo desde que precisou tirar todos os sapatos do armário para pegar a caixa que tinha sua bota, por baixo das outras. É que na sexta-feira anterior, e já era segunda-feira, a chuva forte a fez querer resguardar seus pés da água. E foi porque olhava para eles naquela hora e via que tinha que lhes dar algum cuidado que lembrou que o quarto também precisava de uma higiene. Relegou as caixas de sapato e pegou o saquinho de manicure, com seus esmaltes, alicates e lixas de unha, para cortar as unhas e, quem sabe, havendo disposição, desempenhar o papel de pedicure de si mesma. Não houve disposição e a sessão foi incompleta mesmo. Deixou o esmalte que ainda não tinha uma semana, cortou e lixou as unhas bem retinhas como gostava, lavou os pés com esponja e sabonete na pia, secou-os com a toalha de rosto – que depois poria para lavar, porque porca não era – e passou neles a lavanda dos filhos. Ficaram lindos e cheirosos. Dava prazer ver pés tão arrumadinhos – sensação gostosa como a do diminutivo na hora certa. Não contente ainda, polvilhou-os com talco de bebê e os sentiu sequinhos... “Uma delícia”.
O quarto continuava uma bagunça, sobre a cama A República de Platão, com o marcador em seu Livro VII - já devia ser a décima vez que ela lia A Alegoria da Caverna, mas quis atualizar sua memória, porque o professor de Política do seu segundo curso de graduação voltou a falar do assunto. Ela gostava de exercitar a inteligência, bem mais que o corpo, que só exercitava para não se deprimir com sua figura fora de forma e fora dos padrões de estética tiranizadores dos dias atuais.
Antes de tentar reler Platão, tinha ido ao banco abrir uma conta por exigência do novo emprego de redatora e se alegrou de conseguir realizar a tarefa com pouco enfado. Simplesmente não se lamuriou previamente com a possibilidade de sofrimento que aquela visita lhe causaria, e a realidade lhe foi menos incômoda do que ela mesma consegue ser quando se precipita esses sentimentos negativos. Não tinha fila, o sofá era macio e o atendente que cuidou de sua papelada era bem eficiente. “Jovem, educado, simpático e atencioso”, ela se pegou pensando como sua velha tia o faria, e se sentiu uma senhora resignada, olhando aquele moço com compaixão maternal, com olhos que viam a vida em movimento; aquele jovem diante dela lhe contava sem que soubesse que o tempo conduz a todos... Para a morte.
A morte de novo, assunto fascinante; não a morte em si, mas a condição de mortal de todos nós. Há tempos ela já tinha feito as pazes com essa verdade, mesmo com um friozinho na alma quando pensava que chegaria sua vez. Mas depois da morte o que se pode esperar? E enquanto não se morre, se vive. Só isso. E o importante é cuidar do lugar em que estamos, da etapa anterior à morte. Vamos viver a vida, e não querer viver a morte antes de ela chegar.
E esse foi um dia de boas constatações. Constatações observadas em silêncio. Pela manhã ela fora acordada com um telefonema da escola do filho dizendo que ele estava passando mal, tremia muito e se queixava de dor de cabeça. Desligou o telefone e saiu como que de sirene ligada para pegar seu menininho tão amado e levá-lo ao médico, que, já sabia, estaria em casa e poderia atendê-lo - era seu pai, avô da criança, com quem tinha falado ainda entre o sono e a vigília, antes de ser providencialmente acordada pela funcionária da escola.
Era só a vida acontecendo e nem todas as peças do jogo estavam nas suas mãos. Os dados eram jogados sabe-se lá com que critérios e o acaso fazia suas mágicas como com todo mundo. Não se deve querer tomar conta dos acontecimentos, roteirizar a vida toda, descobrir o que está por vir, o que pode nem ter sido ainda olhado pela sorte. Ah, Deusa Fortuna que submete todos aos seus caprichos.
E esse era só mais um dia comum, ou incomum, como tantos outros. E ela ainda sentia uma faringite se anunciar e teria que dar conta de gravar seus textos como fazia todas as noites, quando andava 45 quilômetros de carro para dar voz às matérias de um programa diário sobre televisão do qual era narradora... Uma vida cheia. Cheia de afazeres, de responsabilidades, de obrigações, de sofrimentos, de alegrias, de risadas, de olhares estranhos e novos olhares de incompreensão, que aconteciam quando ela se pegava tentando entender o incompreensível, o ser humano que cada um é, que cada um representa, que cada um apresenta ao outro, através de suas ações, omissões, opiniões... Gente muito esquisita esses colegas de planeta...
E depois de tanto querer entender entendeu que entender nem sempre é importante, mais importante parece ser saber o que fazer nas cenas em que toma parte... “Respirar, respirar - melhor não me esquecer disso”.
Agora quero um banho pra me lavar de mim.
posted by me 24.3.03